A Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada (EMCLA) é uma tradição acadêmico-científica brasileira que desenvolveu-se ao longo de três gerações de pesquisadores. Ela utiliza as teorias do Caos, da Complexidade e dos Sistemas Adaptativos Complexos para analisar fenômenos da linguagem, do ensino e da aprendizagem como processos dinâmicos, não lineares e adaptativos.
Em seu relatório de estágio pós-doutoral, concluído em 2022, o professor Dr. Antônio Duarte Fernandes Távora, da Universidade Federal do Ceará (UFC), denominou Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada (EMCLA) uma tradição acadêmico-científica brasileira originada no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos — POSLIN/UFMG. Essa tradição teve como ponto de partida as pesquisas da Prof.ª Dr.ª Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva e se desenvolveu por meio de sucessivas gerações de pesquisadores que passaram a mobilizar, reelaborar e produzir conhecimentos fundamentados nas teorias do Caos, da Complexidade e dos Sistemas Adaptativos Complexos para compreender fenômenos da linguagem, do ensino e da aprendizagem como processos dinâmicos, não lineares, adaptativos, emergentes e interdependentes.
Távora localiza as “condições iniciais” dessa tradição na produção de Vera Menezes de Oliveira e Paiva, particularmente em Paiva (2002), atribuindo-lhe o papel de inaugurar, no Brasil, uma perspectiva de investigação que passa a compreender fenômenos da Linguística Aplicada — entre eles a aprendizagem de línguas, as salas de aula, os ambientes digitais, a autonomia, a interação e as comunidades de aprendizagem — pelas lentes da Complexidade. É essa tradição, consolidada ao longo de aproximadamente duas décadas, que o pesquisador passa a reconhecer retrospectivamente como Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada.
Para explicitar a genealogia acadêmica dessa tradição, Távora a organiza em três gerações formativas:
Primeira geração — Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva, pesquisadora que estabelece, no POSLIN/UFMG, as condições iniciais da tradição de estudos da Complexidade em Linguística Aplicada no Brasil.
Segunda geração — os doze doutores orientados por Vera Menezes entre 2005 e 2018, cujas pesquisas mobilizaram as teorias do Caos, da Complexidade ou dos Sistemas Adaptativos Complexos no campo da Linguística Aplicada: Vicente Aguimar Parreiras, Júnia de Carvalho Fidelis Braga, Antônio Carlos Soares Martins, Valdir Silva, Liliane Assis Sade Resende, Rita de Cássia Augusto, Valeska Virgínia Soares Souza, Adriana Gouvea Dutra Teixeira, Claudio de Paiva Franco, Luciana de Oliveira Silva, Carlos Henrique Silva de Castro e Adriana dos Santos Sales.
Terceira geração — os mestres e doutores formados pelos pesquisadores da segunda geração, que passam, por sua vez, a desenvolver novas investigações, produzir conhecimento e ampliar a circulação do pensamento complexo em diferentes instituições, regiões e contextos educacionais.
É precisamente essa continuidade entre gerações que permite compreender a EMCLA não como um conjunto ocasional de pesquisas sobre Complexidade, mas como uma genealogia acadêmica em permanente expansão. As primeiras teses não permaneceram isoladas: seus autores continuaram publicando, formando novos pesquisadores, criando grupos e projetos e deslocando a perspectiva complexa para novos objetos de investigação e diferentes contextos institucionais e educacionais.
É importante observar, portanto, que a denominação EMCLA não antecedeu essas pesquisas. Os trabalhos desenvolvidos em 2005, 2007, 2008 e nos anos seguintes não foram produzidos por pesquisadores que, naquele momento, se autodenominavam integrantes de uma “Escola Mineira”. Foi Távora, em seu relatório de 2022, quem reconheceu retrospectivamente a regularidade, a genealogia, a formação de gerações e a identidade epistemológica desse conjunto de pesquisas e lhe atribuiu o nome Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada.
Essa identificação teve uma consequência importante. 2022 reunia duas circunstâncias históricas especialmente significativas: era o ano em que Távora documentava e nomeava essa tradição de pesquisa e, simultaneamente, o ano em que se completavam vinte anos da publicação de Paiva (2002), tomada pelo próprio autor como marco inicial dessa trajetória no Brasil. Foi nesse contexto que surgiu o e-EMCLA — Encontro da Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada.
Inspirado pelo levantamento realizado por Távora e pela possibilidade de colocar em interlocução as gerações identificadas em sua pesquisa, o primeiro encontro, realizado em 2022, transformou aquela genealogia acadêmica em um espaço efetivo de encontro, diálogo, memória e projeção de novos caminhos para os estudos da Complexidade em Linguística Aplicada.
A criação e, principalmente, a continuidade do e-EMCLA são também resultado da atuação do Núcleo de Pesquisa em Linguagem e Tecnologia — INFORTEC/CEFET-MG, que assumiu a iniciativa de transformar aquele encontro inicial em um projeto acadêmico continuado. Nesse processo, merece destaque a participação de pesquisadores da terceira geração da EMCLA, entre eles mestres e doutores que vêm sendo formados, desde 2009, sob a orientação de Vicente Aguimar Parreiras, integrante da segunda geração identificada por Távora.
Mais do que dar continuidade a uma tradição recebida, essa nova geração vem assumindo progressivamente responsabilidades de pesquisa, organização científica, mediação, divulgação, produção acadêmica e articulação entre universidade e educação básica. Em colaboração com o INFORTEC, seus integrantes têm contribuído para que o e-EMCLA seja realizado anualmente com rigor acadêmico, diversidade temática, abertura ao diálogo e crescente qualidade científica e organizacional.
Desse modo, o e-EMCLA constitui também uma expressão concreta da própria dinâmica complexa que procura estudar: uma tradição iniciada em uma primeira geração, reelaborada por uma segunda e que encontra na terceira geração continuidade e novas emergências, bifurcações e possibilidades de desenvolvimento.
Desde sua primeira edição, em 2022, o e-EMCLA vem se consolidando como um espaço de encontro entre diferentes gerações de pesquisadores da Complexidade em Linguística Aplicada e, sobretudo, como um ambiente de aproximação entre pesquisa acadêmica e prática educativa. Ao reunir pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais da educação, o encontro busca fazer circular conhecimentos para além dos limites da universidade, colocando-os em diálogo com os desafios vividos nas escolas, nas salas de aula, nas comunidades e nos diferentes espaços em que se ensina e se aprende.
Esse percurso vem se ampliando a cada edição. Em 2022, o encontro reuniu pesquisadores das diferentes gerações da EMCLA e revisitou a trajetória dos estudos da Complexidade em Linguística Aplicada. Em 2023, aprofundou-se a aproximação entre essas discussões, as práticas docentes e a formação de professores. Em 2024, foram problematizadas a fragmentação curricular e as possibilidades de construção de uma educação pública inclusiva, dinâmica e não linear. Em 2025, o horizonte foi ampliado para as relações entre saberes, territórios e tecnologias, reconhecendo que conhecimentos científicos e acadêmicos coexistem e dialogam com saberes populares, comunitários, territoriais e culturalmente situados.
Em sua quinta edição, o e-EMCLA dá mais um passo nesse percurso. Em um momento histórico marcado pela presença crescente da Inteligência Artificial, pela plataformização da educação, pela circulação de materiais didáticos digitais e por profundas transformações nos modos de produzir, compartilhar e legitimar conhecimentos, o e-EMCLA.V coloca no centro do debate as condições de participação em ecossistemas complexos de educação linguística.
Pensar condições de participação significa perguntar quem pode entrar, permanecer, interagir, aprender, ensinar, criar, discordar, colaborar, produzir conhecimento e assumir autoria nesses ecossistemas. Significa também reconhecer que tecnologias, linguagens, afetos, territórios, culturas, condições materiais, relações de poder, identidades, conhecimentos e sujeitos não atuam isoladamente, mas se encontram profundamente interligados.
É com esse espírito que a Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada, com a realização do INFORTEC/CEFET-MG, convida pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores da educação básica e superior, estudantes de graduação e pós-graduação, profissionais da educação e todas as pessoas interessadas nas relações entre linguagem, educação, tecnologias e Complexidade para participarem do:
e-EMCLA.V — Quinto Encontro da Escola Mineira de Complexidade em Linguística Aplicada
10 e 11 de dezembro de 2026 – Evento on-line e gratuito
Transmissão pelo Canal INFORTEC no YouTube
REFERÊNCIA
TÁVORA, Antônio Duarte Fernandes. Teorias do caos e sistemas adaptativos complexos em Linguística Aplicada: o fluxo de produção de conhecimento a partir das condições iniciais inauguradas por Vera Menezes de Oliveira e Paiva. 2022. 126 f. Relatório de Estágio Pós-Doutoral — Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2022.